{"id":11333,"date":"2025-12-01T15:33:53","date_gmt":"2025-12-01T18:33:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/?p=11333"},"modified":"2025-12-02T11:07:24","modified_gmt":"2025-12-02T14:07:24","slug":"artigo-o-patriarcado-em-sua-face-mais-brutal-feminicidios-no-cefet-rj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/noticias\/artigo-o-patriarcado-em-sua-face-mais-brutal-feminicidios-no-cefet-rj\/","title":{"rendered":"ARTIGO: O patriarcado em sua face mais brutal: feminic\u00eddios no CEFET\/RJ"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"770\" height=\"427\" data-attachment-id=\"11334\" data-permalink=\"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/noticias\/artigo-o-patriarcado-em-sua-face-mais-brutal-feminicidios-no-cefet-rj\/attachment\/cefet-1\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=1541%2C855&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1541,855\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"cefet-1\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=770%2C427&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=770%2C427&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?resize=770%2C427&#038;ssl=1\" alt=\"A diretora Allane Pedrotti e a psic\u00f3loga Layse Pinheiro\" class=\"wp-image-11334\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?resize=1500%2C832&amp;ssl=1 1500w, https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?resize=770%2C427&amp;ssl=1 770w, https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?resize=150%2C83&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?resize=768%2C426&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?resize=1536%2C852&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?resize=600%2C333&amp;ssl=1 600w, https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?resize=1320%2C732&amp;ssl=1 1320w, https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?w=1541&amp;ssl=1 1541w\" sizes=\"(max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>O Sinasefe Litoral publica, a seguir, artigo de opini\u00e3o escrito pela servidora do campus S\u00e3o Bento do Sul, <strong>Rosana da Silva Cuba<\/strong>, soci\u00f3loga e doutora em Educa\u00e7\u00e3o, sobre o duplo feminic\u00eddio ocorrido no CEFET\/RJ no dia 28 de novembro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No texto, a autora analisa o crime como express\u00e3o da viol\u00eancia estrutural de g\u00eanero no Brasil, discute aspectos hist\u00f3ricos do patriarcado e apresenta dados recentes do Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O conte\u00fado \u00e9 publicado como contribui\u00e7\u00e3o ao debate urgente sobre o enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres nas institui\u00e7\u00f5es educacionais e na sociedade como um todo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>O patriarcado em sua face mais brutal: feminic\u00eddios no CEFET\/RJ<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Por Rosana Cuba<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>               O duplo feminic\u00eddio cometido por um servidor p\u00fablico da Educa\u00e7\u00e3o, Jo\u00e3o Ant\u00f4nio Miranda Tello Ramos, contra as tamb\u00e9m servidoras p\u00fablicas Allane Pedrotti e Layse Pinheiro, no Centro Federal de Educa\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), unidade Maracan\u00e3, zona norte do Rio, no \u00faltimo dia 28 de novembro, \u00e9 uma trag\u00e9dia hedionda e indigesta para todos \u2014 e mais ainda a todas \u2014 n\u00f3s, trabalhadores da \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, estudantes e demais sujeitos das institui\u00e7\u00f5es de ensino. Algumas evid\u00eancias parecem apontar \u2014 digo isto porque as not\u00edcias que temos s\u00e3o poucas e recentes, portanto, podem carecer de confirma\u00e7\u00e3o \u2014 que o servidor tinha sido afastado por n\u00e3o aceitar a chefia imediata de mulheres, chegou a ser lotado em outra institui\u00e7\u00e3o, mas posteriormente retornou ao trabalho na unidade Maracan\u00e3, local dos \u201cconflitos que culminaram no crime\u201d. Esse trecho entre aspas foi retirado \u2014 ipsis literis \u2014 do portal de not\u00edcias Metr\u00f3poles, de texto de not\u00edcia acerca do crime<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. A seguir, fa\u00e7o uma breve digress\u00e3o para pensar nas estruturas que nos formam, na sequ\u00eancia menciono algumas das conquistas da luta feminista e, por fim, trago estat\u00edsticas e uma breve reflex\u00e3o sobre um vi\u00e9s de an\u00e1lise poss\u00edvel desse crime: express\u00e3o de uma esp\u00e9cie de rea\u00e7\u00e3o violenta daqueles que t\u00eam perdido os seus privil\u00e9gios ou autoriza\u00e7\u00e3o para dominar o outro, no caso, as mulheres. Vale apontar que o texto foi escrito em 30 de novembro, ainda sob um profundo pesar, sem muitas informa\u00e7\u00f5es, o que, em alguma medida, julgo procedente, no que diz respeito \u00e0 mem\u00f3ria das mulheres vitimadas. Essa tentativa de escrever\/refletir sobre uma trag\u00e9dia de tal monta, foca na viol\u00eancia de g\u00eanero, mas n\u00e3o se fecha a outros apontamentos relevantes, que certamente n\u00e3o estar\u00e3o aqui, dada a tentativa de s\u00edntese.<\/p>\n\n\n\n<p>Somos parte de uma sociedade cujas ra\u00edzes est\u00e3o fincadas no patriarcado, no racismo e no capital, iniciada a partir dos s\u00e9culos XV e XVI, primeiramente sob o mercantilismo. A modernidade teve in\u00edcio, dentre outras muitas transforma\u00e7\u00f5es, com o aprofundamento da domina\u00e7\u00e3o sobre as mulheres, arrancando delas o conhecimento<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> e negando direitos que permitiriam a participa\u00e7\u00e3o decis\u00f3ria a elas no espa\u00e7o p\u00fablico e na economia. No plano da superestrutura foram mantidas concep\u00e7\u00f5es religiosas que associam as mulheres a um ser mal\u00edgno, transgressora, respons\u00e1vel pela queda do para\u00edso, conforme narram os livros do cristianismo. A essas camadas religiosas, foram sedimentadas mais algumas: tratados biol\u00f3gicos (s\u00e9culo XVIII) que constru\u00edram a diferen\u00e7a e a oposi\u00e7\u00e3o entre mulheres e homens, construindo uma ideia de natureza humana associada ao sexo biol\u00f3gico e conveniente \u00e0 domina\u00e7\u00e3o masculina. As mulheres n\u00e3o seriam seres adequados \u00e0 pol\u00edtica, pois s\u00e3o pouco racionais, sujeitas a oscila\u00e7\u00f5es hormonais e naturalmente propensas ao cuidado, ao espa\u00e7o dom\u00e9stico. No plano da infraestrutura, os Estados constru\u00edram constitui\u00e7\u00f5es e c\u00f3digos civis que negavam o direito aos estudos, \u00e0 heran\u00e7a, o direito ao voto, ao div\u00f3rcio, etc. Nos pa\u00edses que foram colonizados, considere-se nessa breve linha do tempo a escravid\u00e3o imposta aos povos sequestrados de \u00c1frica e a extens\u00e3o da viol\u00eancia praticada contra as mulheres negras e aos povos origin\u00e1rios, apesar das tantas formas de enfrentamento e resist\u00eancia. Pense no quanto esse machismo permeia a nossa cultura e o nosso modo de vida, expresso na linguagem, nas artes, na educa\u00e7\u00e3o, nos curr\u00edculos (quantas mulheres cientistas, al\u00e9m de Marie Curie, est\u00e3o em seus materiais did\u00e1ticos?), na pol\u00edtica, na raz\u00e3o econ\u00f4mica, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>               A ruptura de parte dessa estrutura foi conseguida a partir de muitas lutas, tendo tido eco e resson\u00e2ncia na academia e como uma das consequ\u00eancias a reformula\u00e7\u00e3o de muitas leis e pol\u00edticas p\u00fablicas, \u00e0s quais vivenciamos hoje, ainda que de forma desigual. A partir da luta dos movimentos feministas, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX descortinam-se direitos fundamentais e preciosos \u00e0s mulheres: na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (1918) nasceu o primeiro c\u00f3digo civil \u2014 chamado de C\u00f3digo da Fam\u00edlia \u2014 igualit\u00e1rio, tendo as mulheres o mesmo status social, jur\u00eddico e pol\u00edtico que os homens (Goldman, 2007). Nos Estados Unidos, a soci\u00f3loga Anna Julia Cooper, pioneira do movimento feminista negro, lutava por meio da educa\u00e7\u00e3o, para desmentir as teses acerca da inferioridade e submiss\u00e3o das pessoas negras e\/ou ex-escravizadas. Ainda nos Estados Unidos, nos anos 30, a antrop\u00f3loga Margaret Mead desmentia as teorias que formulavam uma natureza humana feminina e uma natureza humana masculina (Sexo e Temperamento), universais. Em 1975 a luta avan\u00e7a e realiza-se a Primeira Confer\u00eancia Mundial sobre a Mulher da ONU na Cidade do M\u00e9xico. A confer\u00eancia resultou na ado\u00e7\u00e3o da &#8220;Declara\u00e7\u00e3o do M\u00e9xico sobre a Igualdade das Mulheres e sua Contribui\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento e a Paz&#8221; e estabeleceu a d\u00e9cada de 1975-1985 como a D\u00e9cada das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Mulher. No Brasil, em plena ditadura militar, nos anos 70, L\u00e9lia Gonzalez inicia seus estudos e reflex\u00f5es sobre negritude, g\u00eanero e racismo questionando o mito da democracia racial, alimentado pelo Estado brasileiro. Aqui poder\u00edamos apontar in\u00fameras outras representantes da luta que articulavam \u2014 e articulam \u2014 g\u00eanero, ra\u00e7a e classe, como Beatriz do Nascimento e Sueli Carneiro, produzindo luta e teoria e pressionando para que o Estado materialize, de fato, direitos historicamente&nbsp;b\u00e1sicos negados ou negligenciados \u00e0s mulheres pretas. Em 1983, Maria da Penha Maia Fernandes \u00e9 v\u00edtima de duas tentativas de assassinato por seu (ent\u00e3o) marido, tendo sobrevivido e se tornado um s\u00edmbolo da luta por uma legisla\u00e7\u00e3o que combata a viol\u00eancia oriunda do machismo e, ainda, pela responsabiliza\u00e7\u00e3o e por justi\u00e7a a quem cometa viol\u00eancia dom\u00e9stica. A Lei Maria da Penha, de agosto de 2006, reconhece as cinco formas de viol\u00eancia dom\u00e9stica (moral, psicol\u00f3gica, patrimonial, f\u00edsica e sexual), al\u00e9m de instituir medidas protetivas. Para coroar os exemplos sobre as conquistas das mulheres, oriundas das lutas feministas, do movimento negro e classista, em 2015 foi sancionada a Lei 13.104, considerando o feminic\u00eddio como circunst\u00e2ncia qualificadora do crime de homic\u00eddio. Lei essa alterada em outubro de 2024 (Lei 14.994), tornando o feminic\u00eddio crime aut\u00f4nomo e agravando a sua pena e a de outros crimes praticados contra a mulher por raz\u00f5es da condi\u00e7\u00e3o do sexo feminino, dentre outras altera\u00e7\u00f5es. Vale assinalar que \u00e9 triste que um pa\u00eds tenha que aprovar uma lei deste tipo, pois a legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado do reconhecimento de que \u00e9 necess\u00e1rio coibir rela\u00e7\u00f5es sociais opressoras, posto que parte dos homens ainda trata as mulheres como cidad\u00e3s de segunda classe (para dizer o m\u00ednimo). Negar o direito \u00e0 vida porque ser \u00e9 mulher \u00e9 inconceb\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>               Pois bem, retornamos ao fato, propriamente dito, narrado por parte da imprensa como um \u201ccrime ocasionado por conflitos anteriores\u201d. Ora, \u00e9 preciso nomear as coisas como elas s\u00e3o: trata-se de dois feminic\u00eddios e ponto. \u00c0s mulheres que ocupavam seus postos de trabalho, seja em cargos de chefia, de coordena\u00e7\u00e3o ou simplesmente para realizar o trabalho ao qual foram designadas, n\u00e3o podem ser atribu\u00eddas a responsabiliza\u00e7\u00e3o por um crime que as vitimou de forma letal. N\u00e3o temos a exata dimens\u00e3o do que as not\u00edcias, de forma geral, chamam de \u201cconflitos\u201d, mas pode se dizer que divergir de posicionamento ou de decis\u00f5es tomadas \u2014 seja na forma de discord\u00e2ncias verbais, de posi\u00e7\u00f5es de ideias que n\u00e3o ferem a Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988 e a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o, que rege a todas as institui\u00e7\u00f5es escolares no Brasil desde 1996) e o C\u00f3digo Penal, dentre outros estatutos com for\u00e7a de lei \u2014 \u00e9 absolutamente leg\u00edtimo e pode ocorrer no plano institucional nos \u00f3rg\u00e3os de classe ou deliberativos existentes.<\/p>\n\n\n\n<p>               Os crimes de viol\u00eancia contra as mulheres, na forma de feminic\u00eddios, seguem sendo um n\u00famero elevado, embora saibamos de todas as subnotifica\u00e7\u00f5es de outras formas de viol\u00eancia e mesmo de feminic\u00eddios qua assim n\u00e3o s\u00e3o notificados, por ocorrer fora do ambiente dom\u00e9stico. Segundo a Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, nos \u00faltimos dois anos o n\u00famero de feminic\u00eddios aumentou no Brasil e isso ainda tem um componente de intensidade, quando se analisa a propor\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos homic\u00eddios de mulheres. Conforme os dados, em n\u00fameros absolutos, no Brasil, em 2023 houve 1475 feminic\u00eddios e, em 2025, 1492. Quando se verifica a propor\u00e7\u00e3o de feminic\u00eddios em rela\u00e7\u00e3o aos homic\u00eddios de mulheres, a propor\u00e7\u00e3o aumentou de 37,5% em 2023 para 40,3% em 2024. Para realizar um recorte aqui, de dois estados: Rio de Janeiro (onde est\u00e1 o CEFET\/Maracan\u00e3) e Santa Catarina, de onde escrevo, os n\u00fameros mostram algo semelhante: no Rio o n\u00famero de feminic\u00eddios em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de homic\u00eddios saltou de 34,1% para 47,5% e em Santa Catarina, de 53,3% para 61,4%. O pr\u00f3prio anu\u00e1rio&nbsp; destaca que os dados de feminic\u00eddios em 2024 \u00e9 o maior desde 2015, quando a lei entrou em vigor: \u201cno \u00faltimo ano, todos os dias, ao menos quatro mulheres morreram v\u00edtimas de feminic\u00eddio no Brasil\u201d<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. O caso espec\u00edfico sobre o qual dialogamos aqui se afasta de dois pontos em rela\u00e7\u00e3o a alguns outros dados: n\u00e3o \u00e9 o caso de mulheres negras (63,6% das v\u00edtimas) e a morte delas n\u00e3o decorreu do uso de arma branca, utilizadas por companheiros em ambiente dom\u00e9stico (48,4% das mortes).<\/p>\n\n\n\n<p>               Em aberto e que ainda pode ser investigado, no caso em tela, \u00e9 se houve \u2014 como na maioria dos casos, conforme aponta o pr\u00f3prio Anu\u00e1rio 2025 \u2014 um <em>continuum <\/em>&nbsp;de viol\u00eancia perpetrada contra as v\u00edtimas at\u00e9 o momento letal. A se confirmar, \u00e9 preciso que as institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o estejam atentas para o fortalecimento de pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade para todos\/todas os\/as servidores, bem como aos estudantes e toda a comunidade acad\u00eamica. Assinalamos que mais precisamente&nbsp; \u00e0s mulheres (inclusive mulheres trans), que s\u00e3o as v\u00edtimas da viol\u00eancia de g\u00eanero. Precisamos falar e formar sobre g\u00eanero e misoginia nas institui\u00e7\u00f5es, para al\u00e9m de setores, grupos de trabalho ou n\u00facleos institucionais (N\u00facleos de G\u00eanero\/NEGES, dentre outros, comuns nas institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o superior federais), bem como inst\u00e2ncias de representa\u00e7\u00e3o (Diret\u00f3rios Acad\u00eamicos estudantis ou Sindicatos dos trabalhadores). Inst\u00e2ncias como aquelas em que ocorrem media\u00e7\u00f5es de conflitos \u2014 reconhecendo as especificidades daqueles permeados por quest\u00f5es de classe, ra\u00e7a ou g\u00eanero \u2014 tamb\u00e9m podem ser ambientes de escuta e promo\u00e7\u00e3o de preven\u00e7\u00e3o a viol\u00eancias, embora tenha que se levar em conta tamb\u00e9m certa predisposi\u00e7\u00e3o individual para refletir acerca das pr\u00f3prias vis\u00f5es de mundo e subjetividades. Esse homem ao qual referimos aqui muito provavelmente teve chefes e colegas homens dos quais discordou e\/ou recebeu ordens, mas foi contra duas mulheres que ele resolveu atirar. Jo\u00e3o Ant\u00f4nio Miranda Tello Ramos \u2014 que se suicidou ap\u00f3s os feminic\u00eddios, impondo tamb\u00e9m a si mesmo o fim da pr\u00f3pria vida \u2014 corresponde \u00e0 estat\u00edstica do Anu\u00e1rio da Seguran\u00e7a P\u00fablica (2025), que aponta para a autoria dos feminic\u00eddios: 97% s\u00e3o cometidos por homens, evidenciando&nbsp; \u201cque h\u00e1 uma estrutura social que legitima, permite e naturaliza o uso da viol\u00eancia por homens contra mulheres\u201d (p.162 do Anu\u00e1rio). A viol\u00eancia naturalizada e reiterada contra as mulheres e a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAPN+ continua sendo minimizada e ao mesmo tempo encorajada por alguns dos parlamentares brasileiros e muitos oriundos de fra\u00e7\u00f5es de classe que se veem amea\u00e7ados quando as mulheres al\u00e7am igualdade de condi\u00e7\u00f5es para ocupar postos de trabalho ou para libertar-se do jugo de rela\u00e7\u00f5es afetivas violentas \u2014 em suas m\u00faltiplas formas \u2014 para elas. Essa esp\u00e9cie de rea\u00e7\u00e3o inclui tamb\u00e9m a mobiliza\u00e7\u00e3o de saberes supostamente \u201cjur\u00eddicos\u201d, abrindo brechas para projetos de lei e de jurisprud\u00eancias que colocam as mulheres em risco.<\/p>\n\n\n\n<p>               A luta contra a viol\u00eancia de g\u00eanero, considerando as rela\u00e7\u00f5es entre ra\u00e7a e classe, precisa ser enfrentada nas estruturas e institui\u00e7\u00f5es, muito embora estejamos sob o guarda-chuva das pol\u00edticas neoliberais que apontam apenas para o absente\u00edsmo diante da organiza\u00e7\u00e3o coletiva e o al\u00edvio individual cotidiano como sa\u00eddas poss\u00edveis. O fim \u2014 por completo \u2014 da viol\u00eancia de g\u00eanero ocorrer\u00e1 quando formos capazes de tecer novas formas de sociedade, que n\u00e3o sejam fundadas nas l\u00f3gicas da explora\u00e7\u00e3o e do patriarcado. A coexist\u00eancia humana sob outras formas de organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social necessita estar no horizonte e a cada pol\u00edtica p\u00fablica de preven\u00e7\u00e3o e de combate \u00e0 viol\u00eancia, talvez nos aproximemos da utopia.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rosana da Silva Cuba \u00e9 soci\u00f3loga, doutora em Educa\u00e7\u00e3o e especialista em G\u00eanero e Diversidade na Escola.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><sup>[1]<\/sup> O texto foi lido e acessado em 30 de novembro de 2025: <a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/distrito-federal\/na-mira\/atirador-do-cefet-foi-afastado-por-nao-aceitar-ser-chefiado-por-mulher\">https:\/\/www.metropoles.com\/distrito-federal\/na-mira\/atirador-do-cefet-foi-afastado-por-nao-aceitar-ser-chefiado-por-mulher<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p><sup><sup>[2]<\/sup><\/sup> Silvia Federici descreve bem o processo mencionado em Calib\u00e3 e a Bruxa. Mulheres, corpo e acumula\u00e7\u00e3o primitiva. Tradu\u00e7\u00e3o Coletivo Sycorax. Editora Elefante, 2017. <\/p>\n\n\n\n<p><sup><sup>[3]<\/sup><\/sup> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/anuario-2025.pdf\">https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/anuario-2025.pdf<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p><sup>[4]<\/sup> F\u00d3RUM BRASILEIRO DE SEGURAN\u00c7A P\u00daBLICA. 19\u00ba Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. S\u00e3o Paulo: F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, 2025, p.147. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/publicacoes.forumseguranca.org.br\/handle\/123456789\/279\">https:\/\/publicacoes.forumseguranca.org.br\/handle\/123456789\/279<\/a>. Acesso em: 30\/11\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>TEXTOS MENCIONADOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>GOLDMAN, Wendy. Mulher, Estado e revolu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Boitempo; Iskra, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>FEDERICI, Silvia. Calib\u00e3 e a Bruxa. Mulheres, corpo e acumula\u00e7\u00e3o primitiva. Tradu\u00e7\u00e3o: coletivo Sycorax. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>F\u00d3RUM BRASILEIRO DE SEGURAN\u00c7A P\u00daBLICA. 19\u00ba Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. S\u00e3o Paulo: F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, 2025. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/publicacoes.forumseguranca.org.br\/handle\/123456789\/279\">https:\/\/publicacoes.forumseguranca.org.br\/handle\/123456789\/279<\/a>. Acesso em: 01\/12\/2025.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Sinasefe Litoral publica, a seguir, artigo de opini\u00e3o escrito pela servidora do campus S\u00e3o Bento do Sul, Rosana da Silva Cuba, soci\u00f3loga e doutora em Educa\u00e7\u00e3o, sobre o duplo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":11334,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11333","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=1541%2C855&ssl=1","uagb_featured_image_src":{"full":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=1541%2C855&ssl=1",1541,855,false],"thumbnail":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=150%2C83&ssl=1",150,83,true],"medium":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=770%2C427&ssl=1",770,427,true],"medium_large":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=768%2C426&ssl=1",768,426,true],"large":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=770%2C427&ssl=1",770,427,true],"1536x1536":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=1536%2C852&ssl=1",1536,852,true],"2048x2048":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=1541%2C855&ssl=1",1541,855,true],"post-thumbnail":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?resize=768%2C432&ssl=1",768,432,true],"cenote-full-width":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?resize=1160%2C653&ssl=1",1160,653,true],"cenote-post":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?resize=600%2C400&ssl=1",600,400,true],"cenote-post-auto":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=600%2C333&ssl=1",600,333,true],"mailpoet_newsletter_max":["https:\/\/i0.wp.com\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/cefet-1.jpg?fit=1320%2C732&ssl=1",1320,732,true]},"uagb_author_info":{"display_name":"Coordena\u00e7\u00e3o","author_link":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/author\/coordena\/"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"O Sinasefe Litoral publica, a seguir, artigo de opini\u00e3o escrito pela servidora do campus S\u00e3o Bento do Sul, Rosana da Silva Cuba, soci\u00f3loga e doutora em Educa\u00e7\u00e3o, sobre o duplo [&hellip;]","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p9YpaO-2WN","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11333","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11333"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11333\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11346,"href":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11333\/revisions\/11346"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11334"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11333"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11333"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sinasefe-ifc.org\/litoral\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11333"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}